Sobre Depressão e Suicídio

Atualizado: Set 24




Acredito que um dos maiores enganos com relação a quem acaba de começar uma vida cristã é acreditar que a partir do momento em que se levanta a mão e aceita-se a Cristo não haverá mais nenhum tipo de luta ou adversidade. Essa ideia é perigosa porque qualquer perrengue é motivo para que a fé seja abalada.


Essa ideia tem sido muito difundida por movimentos modernos que interpretam as escrituras a partir de uma chave antropocêntrica e torna as palavras de Cristo nada mais do que autoajuda. A mensagem de Deus é poderosa e viva, e não pode ser reduzida, de maneira alguma, a uma fórmula de sucesso financeiro ou mesmo de uma vida sem dores.


“Tenho-vos dito isto, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo.” – João 16:33

Jesus morreu por nós para termos possibilidade de salvação. Ele se entregou para que através da fé nEle, fôssemos salvos. Isso não implica, necessariamente, que enquanto estivermos por aqui, neste mundo caído, estejamos isentos de dias maus, da pobreza, da tristeza, da ira.


Evidente que, ao nos enviar o Espírito Santo, Deus nos proporcionou consolo para os dias ruins, força para suportarmos as lutas, e coragem para encararmos o leão de frente.


Assim, por causa dessa teologia do sucesso, milhares de igrejas têm se esquecido de como atender às necessidades do povo e espalham uma ideia de perfeição que não será nunca alcançada por nenhum dos filhos de Deus, não nesta terra.


Isso, além de deixar doentes as pessoas que estão à frente, segrega aquelas que não se enquadram nesse nível de perfeição e gera pessoas mais doentes e aumenta o número de pessoas que desistem da fé em Cristo porque simplesmente acham que não são dignas da estarem ali.


Verdade seja dita, ninguém merece nada por si mesmo, somos redimidos por Cristo, é através dele que somos santificados e preparados para o céu:


“Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores. Logo muito mais agora, tendo sido justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira. Porque se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, tendo sido já reconciliados, seremos salvos pela sua vida.” – Romanos 5:8-10

Essa expectativa de alta performance do ser-humano só o pressiona, embaça a visão, faz com que ele perca sua identidade ao tentar se adequar em contextos sociais em que isso é propagado. Quando ele menos percebe, jogou tudo para de baixo do tapete, e não resolveu absolutamente nada. O processo de cura das mágoas, dos vícios, não é respeitado, e interrompido para a utilização apenas de uma máscara.


Eu fui amadurecendo como cristão, depois como pastor, e tive que lidar com muitas máculas que meu passado havia me deixado. Por muito tempo não entendia qual era a solução para este ou aquele problema, e sempre buscava no Senhor uma direção.


A questão é que, há momentos em que você se encontra em uma encruzilhada, a vida se torna pesada, e você se sente angustiado. E foi então, que, depois de algum tempo de caminhada com Cristo que descobri que teria de enfrentar a depressão e a ansiedade.


Segue uma definição feita pelo Dr. Drauzio Varela sobre o que é depressão: “Depressão (CID 10 – F33) é uma doença psiquiátrica crônica e recorrente que produz uma alteração do humor caracterizada por uma tristeza profunda, sem fim, associada a sentimentos de dor, amargura, desencanto, desesperança, baixa autoestima e culpa, assim como a distúrbios do sono e do apetite. É importante distinguir a tristeza patológica daquela transitória provocada por acontecimentos difíceis e desagradáveis, mas que são inerentes à vida de todas as pessoas, como a morte de um ente querido, a perda de emprego, os desencontros amorosos, os desentendimentos familiares, as dificuldades econômicas etc. Diante das adversidades, as pessoas sem a doença sofrem, ficam tristes, mas encontram uma forma de superá-las. Nos quadros de depressão, a tristeza não dá tréguas, mesmo que não haja uma causa aparente. O humor permanece deprimido praticamente o tempo todo, por dias e dias seguidos. Desaparece o interesse pelas atividades que antes davam satisfação e prazer e a pessoa não tem perspectiva de que algo possa ser feito para que seu quadro melhore.”


A vida estava aparentemente normal quando fiz uma viagem a Cariacica no dia 11/08/18 com minha equipe de missionários para realização de uma missão com crianças em situação de vulnerabilidade. O trabalho correu perfeitamente.


Viemos embora e, no caminho, decidimos parar na cidade de Domingos Martins - ES para passear um pouco e conhecer o local. Quando estava passeando comecei a sentir alguns sintomas de uma ansiedade muito forte, percebi logo a situação, e comecei a trabalhar para cessar aquele momento. Minha formação terapêutica me ajudou nessa hora. Meus amigos não entenderam nada. Parecia que eu teria um ataque do coração e morrer ali mesmo. Fui trabalhando e consegui administrar aquele momento.


Rapidamente pedi para irmos embora dali. Andamos um pouco mais e estava na hora do almoço, então paramos na cidade de Pedra Azul – ES. Quando chegamos na cidade, outra crise me pegou, ainda mais forte e violenta, demorei para cessar essa crise mas graças a Deus consegui. Almoçamos e viemos embora.


Eu estava dirigindo meu carro, doido para chegar em casa, isso me fez andar acima do limite sem perceber que estava, tamanha era a vontade de chegar em casa.


Quando cheguei em Carangola no dia 12/08 outra crise me pegou a ponto de parar no hospital para ser medicado, passei parte da tarde no hospital e depois fui para casa.


No dia 13/08, era meu aniversário e acordei muito zonzo e atordoado devido a medicação do dia anterior. Quando levantei meus amigos estavam com um café da manhã preparado para comemorar meu aniversário. Foi um momento muito bom, mas o pior ainda estava por vir.


Achei que estava tudo bem e resolvi ir trabalhar, como de costume, na igreja mas quando virei a esquina da minha casa, uma crise de ansiedade violenta me pegou e fui parar no hospital novamente, ficando internado por dois dias.


O diagnóstico foi ansiedade com agravamento para surto do pânico. Comecei a tomar medicamentos fortes. Logo que saí do hospital entrei em depressão. Nunca antes havia acontecido tal coisa comigo.


Fiquei mais de uma semana sem sair de casa, preso no quarto, sem falar com ninguém, sem comer direito.


Passado esse tempo, resolvi falar com alguns amigos e comecei a retornar a sair e trabalhar.


Passei a tomar medicamentos fortes para poder controlar a ansiedade, depressão e pânico.


Como falei acima, é necessário que nossa percepção do evangelho inclua o dia mal. Se achamos que a vida no cristianismo será completamente feliz, não estaremos preparados para o dia mal, e então nossa fé será abalada.


Um dos momentos mais tristes da minha vida foi a morte do meu pai. É um momento de torpor, falta de ânimo e desesperador. Alguém que te apoiou, que cuidou de você, que sempre esteve ali, de repente se vai. Faltam palavras para definir a tristeza.


O que confortou meu coração foi o Espírito Santo e, também, saber que ele havia reconhecido Jesus como seu único e suficiente salvador. Além disso, tive a alegria de realizar o culto fúnebre dele, porque tinha maior orgulho dele como pai.


A igreja precisa estar preparada para lidar com seus membros que passam por dificuldades psicológicas. Isso ainda é tratado como tabu dentro das quatro paredes.


Por muito tempo, pessoas deprimidas, ansiosas e angustiadas eram consideradas endemoniadas no meio cristão. Cada dia mais, pessoas que se encontravam nessa situação abandonavam as igrejas, as quais deveriam ser um ambiente de cura.


“A depressão é uma doença incapacitante que atinge por volta de 350 milhões de pessoas no mundo. Os quadros variam de intensidade e duração e podem ser classificados em três diferentes graus: leves, moderados e graves. Além disso, ela também pode atingir crianças. e adolescentes” de acordo com Varela.


Não podemos mais deixar de cuidar das pessoas que passam por isso, e precisamos nos preparar para tal. Esse sistema da teologia do sucesso não pode mais nos afastar das pessoas que precisam de ajuda.


Humildade e reconhecimento de que somos apenas barro na mão do oleiro, dependemos de Deus para sermos justificados e não podemos fazer nada por nós mesmos, é um dos passos para gerarmos mais empatia pelo ferido, pelo necessitado, pelo deprimido.


“A Boa-Nova significa que podemos parar de mentir a nós mesmos. O doce som da graça admirável nos salva da necessidade do autoengano. Ela nos impede de negar que, embora Cristo tenha sido vitorioso, a batalha contra a lascívia, a cobiça e o orgulho ainda ecoam dentro de nós. Na condição de pecador redimido, posso reconhecer com qual frequência sou insensível, irritável, exasperado e rancoroso com os que me são mais próximos. Quando vou à igreja, posso deixar meu chapéu branco em casa e admitir que falhei. Deus não apenas me ama como eu sou, mas também me conhece como sou. Por causa disso não preciso aplicar maquiagem espiritual para fazer-me aceitável diante dele. Posso reconhecer a posse de minha miséria.” Brennan Manning, O evangelho maltrapilho


Manning fala aqui de pecados mais comuns e arquétipos, mas o importante é entender o conceito. Quando reconhecemos nossa vulnerabilidade, nos tornamos humildes, e a partir disso passamos a olhar com maior compreensão para a vulnerabilidade do próximo.


Além disso, a depressão é um dos gatilhos para o suicídio, o qual, de acordo com matéria do Estadão, é a segunda causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos no mundo. A cada 40 segundos uma pessoa se suicida, sendo que 79% dos casos se concentram em países de baixa e média renda.


A OMS estima que, note, 800 mil pessoas morrem por suicídio por ano – os números do relatório são referentes a 2016. No Brasil, foram registrados 13.467 casos.² Dentro da igreja temos muitos casos de depressão, e, inclusive de suicídio. A minha história com depressão não é a única. Pode até haver alguém lendo estas páginas que esteja passando por problemas similares.


Precisamos passar a compreender que problemas de ordem psicológica são tão importantes como as outras enfermidades de modo geral. E precisamos, como igreja, apoiar e direcionar nossos irmãos que estejam passando por isso.


Não é uma conversa de amigo que resolverá o problema, apesar de esta ser uma das partes essenciais na recuperação. Além disso, é necessário que se procure um médico, um psicólogo ou psiquiatra que possa acompanhar ao longo do tratamento.


Espero que meu relato, como pastor, sirva como consolo e objeto de identificação para aqueles que passaram ou passam por isso todos os dias.


O amor do Pai é muito maior que nossas fraquezas, fragilidades emocionais e vícios. Não podemos limitar a soberania de Cristo. Sejamos compassivos e amorosos, exemplos da mensagem do pai aqui na Terra.


“O amor divino é um Amor-Doação. O Pai entrega ao Filho tudo o que ele é e tem. O filho se entrega ao Pai e se entrega ao mundo e ao Pai pelo mundo, e com isso também resgata o mundo (nele mesmo) para o Pai.” C. S. Lewis, Os quatro amores


Esse artigo é um capítulo do livro: Caminhos, o poder transformador de Jesus.




Artigos

mockup-03_edited.jpg
Assine a nossa newsletter