• Neuza Itioka

O Mundo dos Espíritos

Atualizado: Set 24



Apesar de vivermos no chamado século da ciência e do extraordinário avanço da tecnologia, com a mecanização dos meios de produção, permitindo que o homem tenha mais tempo para o lazer, o mundo experimenta cada dia a explosão do ocultismo e do animismo em grandes proporções. O mundo ocidental, que sempre teve uma abordagem científica e reducionista da realidade, está sendo chamado a reavaliar seus meios de apreensão da mesma.


Paul Hiebert apresenta o conceito da “zona intermediária excluída”, tentando mostrar quanto à cosmovisão ocidental tem uma visão reducionista da realidade. Ele destaca o aspecto de imanência / transcendência e de analogias orgânica / mecânica. Imanência tem a ver com o mundo visível ou empírico; transcendência com o transempírico, o que está além do sentido da percepção imediata. Diz ele, com respeito à analogia mecânica e orgânica:


“É bastante comum verificarmos as duas analogias básicas que são, a primeira, a percepção das coisas como seres vivos, em relação uns com os outros; e, segunda, a percepção das coisas como objetos inanimados, que interagem mecanicamente, uns sobre os outros, como peças de uma máquina.”


Nesta estrutura analítica da realidade, Hiebert apresenta no primeiro estrato a alta religião e, no terceiro, a religiosidade popular, social, e a ciência natural. E o estrato do meio é por ele chamado de “zona intermediária”, que focaliza o aspecto sobrenatural deste mundo. Ela está constantemente excluída na cosmovisão ocidental. Desse modo, missionários e pastores treinados em nossos seminários não sabem como lidar com problemas pertinentes a essa área. Muitos deles nem acreditam que espíritos ou aparições existem e que constituem verdadeiros problemas para o povo em geral. Portanto, quando alguém fala de medo de espíritos, simplesmente eles descartam a sua existência, em vez de considerar os problemas com seriedade e procurar apresentar uma solução mais eficaz, na pessoa de Jesus Cristo.


Paul Hiebert responsabiliza a nossa teologia evangélica ocidental como um dos elementos a reforçar essa mesma cosmovisão reducionista da realidade, afugentando Deus, anjos e espíritos para uma realidade tão transcendente, sem nenhuma relação com os fatos cotidianos de milhares de pessoas. Ele diz que a visão bíblica e hebraica é muito diferente da que conhecemos como “cristã ocidental”, porque tanto Deus como os anjos e os espíritos interagem com os seres humanos, numa mesma realidade a que pertencem.


A cosmovisão ocidental reducionista é a razão para a antropologia admitir que as tribos “primitivas” precisam da crença na existência dos espíritos para explicar certos problemas, as doenças e calamidades, hoje controláveis pela ciência e pela medicina. Da mesma forma, essa perspectiva da realidade leva os psicólogos a considerarem a dinâmica psicológica na crença dos espíritos malfazejos das tribos indígenas. E, assim, muitos teólogos e cristãos, apesar do reaparecimento do satanismo e do espiritismo em grandes proporções, não conseguem reconhecer o mundo dos espíritos, pela mesma razão. Já alguns antropólogos, sociólogos e psiquiatras, por testemunharem a realidade de uma outra dimensão através de seus trabalhos práticos, estão mais e mais convencidos de que vivemos “num universo vivo”, habitado por espíritos.


Para a cosmovisão hebraica, a realidade não é dicotomizada em um mundo dos homens e um mundo dos espíritos. Tudo é uma coisa só. Deus falava com o povo, e seus emissários, os anjos, apareciam aos homens, conforme a necessidade. Por outro lado, era muito fácil o povo ser seduzido por espíritos estranhos, como deuses e ídolos, dos países circunvizinhos. Pois estes eram governados por deuses, cuja adoração e serviço a eles prestados reduziam os homens à condição de escravos desses espíritos, levando o povo a uma degradação moral e espiritual, com consequências irremediáveis. Por isso Deus havia terminantemente proibido que o povo se envolvesse com deuses e ídolos estranhos. Apesar de toda a proibição de tais práticas religiosas estranhas, relatada, por exemplo, em Deuteronômio 18, os israelitas foram seduzidos a consultar os espíritos familiares (Dt 18.19); a praticar a adivinhação de todos os tipos (2Rs 17.17); deuses da umbanda 8 8 e à adoração da rainha dos céus (Jr 4.17,25); e ainda a adoração a Baal (1Rs 18.22) e a outras entidades.


Natureza e manifestação dos espíritos


O homem e a mulher foram criados para adorar e servir exclusivamente o seu SENHOR, e nisso encontrariam a perfeita felicidade. Contudo, o inimigo de Deus, Satanás, conhecido como o Adversário, conseguiu roubar o que existia de mais belo no ser humano, obtendo sua lealdade e fidelidade.


O que é mais belo e dignificante para o homem e para a mulher é adorar o seu Deus, criador e SENHOR, em verdade e em espírito. E a contraparte disso é também verdade. Não há o que seja mais degradante, para o ser humano, do que adorar e servir o inimigo de Deus e dos homens, Satanás e suas hostes. Isso, porém, é o que Satanás intentou fazer, roubar o que pertencia somente a Deus. Portanto, desde a Queda, Deus está buscando o seu povo, e providenciou para ele o caminho de volta. O usurpador, porém, continua a roubar o que é mais precioso e essencial no homem, a sua capacidade de adorar. O meio mais fácil de atingir esse objetivo foi inventar uma contrafação: a religião, a idolatria e o politeísmo, no qual o inimigo se esconde para ser adorado, adulado e servido.


Satanás e suas hostes


Na “plenitude dos tempos” Jesus enfrentou Satanás em pessoa, antes de inaugurar o seu ministério público. Isso aconteceu imediatamente após o seu batismo e de ter sido cheio do Espírito Santo (Lc 4.1-14). Jesus havia se feito carne para destruir as obras de Satanás (1Jo 3.8). Sendo habitado pela plenitude da divindade, através do Espírito de Deus, com a autoridade do Filho de Deus, Jesus passou a enfrentar e desafiar o inimigo de Deus, preparando-se para lhe dar um golpe final através da morte na cruz.


O “Príncipe deste Mundo”, juntamente com seus principados e potestades, instigou as autoridades judias e romanas a crucificar o seu rival, o “Príncipe da Paz”. Com isso, ele creu ter conseguido a maior vitória na história do universo, mas, na realidade, Satanás estava cavando a sua própria derrota. Na morte expiatória de Jesus de Nazaré estava prescrita “a sentença de morte e destruição eterna” do próprio adversário de Deus. E com a morte e ressurreição do Filho de Deus, Satanás e todas as suas hostes de anjos caídos foram despojados e ridicularizados em público (Cl 2.15). Mais do que qualquer seguidor de Jesus Cristo, Satanás e suas hostes estão conscientes de que estão derrotados e sabem que têm ação circunscrita e um tempo limitado para roubar, matar e destruir (Jo 10.10). Ele é um inimigo derrotado, pois a cruz amaldiçoada tornou-se o maior símbolo do triunfo na luta cósmica contra o adversário de Deus e dos homens. Por isso, os seguidores de Jesus Cristo podem exercer a autoridade do seu SENHOR e Salvador para sobrepujar as ameaças, as tentações, os ataques satânicos e as artimanhas dos demônios.


Quando a Igreja Primitiva declarava “Jesus Cristo é o SENHOR”, essa confissão envolvia não apenas uma dimensão política de que sua lealdade não era para com César, mas, sim, para com Jesus Cristo; ela envolvia também uma dimensão cósmica e espiritual de que Jesus Cristo havia conquistado e derrotado Satanás e seus anjos. Diz Oscar Cullmann que o Salmo 110 foi repetidamente usado através de toda a vida da Igreja Primitiva, bem como através do Novo Testamento. Agora o SENHOR Jesus estava assentado ao lado do Pai, nos lugares celestiais, e convinha que reinasse até colocar os seus inimigos debaixo de seus pés. Com essa confissão, Jesus Cristo está sendo considerado como aquele que subjugou todos os poderes, anjos e demônios.


Além de citar o apóstolo Paulo em diversas passagens, Cullmann chama à atenção que tanto Inácio de Antioquia, como Policarpo e Ireneu afirmam o fato de que a confissão “Jesus Cristo é o SENHOR” significava o senhorio de Jesus sobre todos os poderes de toda a criação, tanto visíveis como invisíveis.


O “príncipe das trevas” (Cl 1.13); o “príncipe deste mundo” (Jo 12.8); o “príncipe da potestade do ar” (Ef 2.2); o “acusador dos irmãos” (Ap 12.10); “o tentador” (Mt 4.3); “o dragão, a antiga serpente” (Ap 12.9); “Apoliom”, que significa “destruidor”; “Belial” (2Co 6.15); “Belzebu”, que é o príncipe dos demônios (Mt 10.25); o “governador deste mundo” (Jo 12.31); o “maligno” (Mt 6.13); o “homicida”, que significa “assassino” (Jo 8.44); e o “pai da mentira” (Jo 8.44) são alguns nomes que o Novo Testamento usa referindo-se a “Satanás”, que literalmente significa “adversário”, o arqui-inimigo de Deus e dos homens.


As páginas das Escrituras Sagradas estão cheias de referências a uma entidade espiritual maligna, que tem uma personalidade em constante oposição a Deus. Seu objetivo é guerrear contra o povo de Deus, para dele roubar a lealdade e fidelidade que pertencem somente ao SENHOR Deus e Criador de todas as coisas. Seu desejo mórbido de usurpar a posição de Deus está ainda presente em todas as suas ações, embora ele já saiba que o que lhe reserva no futuro é apenas sua destruição eterna. Um dos nomes relacionados com a origem de Satanás é Lúcifer, o portador de luz. De acordo com alguns autores evangélicos, ele foi a criatura mais perfeita, sábia e formosa que deveria estar a serviço de Deus. Autores da linha mais tradicional evangélica, tais como Merril Tenney, Merril F. Unger, Michael Green, F. F. Bruce, Mark I. Bubeck atribuem os textos de Ezequiel 28.12-19 e Isaías 14.12-20 não apenas à lamentação poética e metafórica do que aconteceu historicamente com os reis de Tiro e da Babilônia, mas esses autores veem nesses textos uma alusão a uma entidade espiritual que, tendo experimentado a “queda” provocada pelo orgulho e o desejo de usurpação do lugar de Deus, está sendo a fonte de inspiração para um mesmo tipo de destino desses reis, que sofreram uma humilhação estonteante. De acordo com esses autores, pode-se afirmar que Satanás era um querubim ungido, um anjo que guardava o trono de Deus. Nele estava a plenitude da sabedoria, e a perfeição da beleza. Atingido, porém, com o orgulho, foi precipitado, sofrendo uma queda irreparável.


Diz Clarence Larkin3 que, provavelmente, isto não se refere ao Éden terrestre, como muitos comentaristas tradicionais acreditam, mas sim ao Paraíso de Deus, nos altos. Portanto, Satanás pode ter morado no “Monte Santo de Deus”. Quando esse querubim ungido caiu, levou consigo uma terça parte das legiões celestiais (Ap 12.4).


Martin Lloyd Jones é citado por Michael Green, quando ele interpreta essas passagens, dizendo:


“Estas descrições, embora primeiramente tenham intencionado aplicar-se a Tiro e à Babilônia, são de opinião generalizada de que têm uma aplicação mais ampla. Isto é algo muito normal e costumeiro em profecia. Começa-se com algo imediato, mas ao mesmo tempo visando algo maior ainda por vir. Isso acontece no que se refere ao bem e ao mal. Há muitas profecias relacionadas ao rei Davi apenas, mas elas vão além de Davi e apontam para o Messias... É exatamente o mesmo no que se refere ao mal. Ao descrever a queda de Tiro e da Babilônia, os profetas são inspirados a sugerir algo maior. Tiro e Babilônia não são meramente poderes que se opõem a Deus, são também símbolos do poder do diabo e sua força.”


O problema da origem do mal é um dos assuntos mais difíceis de serem resolvidos. Alguns autores demonstram a preocupação de provar que Deus não criou o mal em si, tentando assim evitar o problema do dualismo do bem e o mal.


Tenneyé, outro autor que diz o seguinte quanto a Satanás:


“Satanás não é ser eterno, nem existe por si mesmo. O monoteísmo escriturístico não deixa margem para qualquer visão de um eterno dualismo do bem e do mal. Suas limitações são consistentes com a sua natureza como um ser criado... ele é um ser caído. A afirmação de que ‘ele não se firmou na verdade’5 indica não apenas o seu passado caído, mas também o seu caráter apóstata resultante. Satanás caiu sobre a condenação de Deus através do orgulho ambicioso.”


Assim, Deus criou Lúcifer e não Satanás, isto é, quando ele foi criado, ele não possuía a natureza maligna. Ela é o produto final da rebelião, da cobiça, da inveja e da tentativa de usurpar o próprio trono de Deus, tentativa essa que trouxe a queda e que, como consequência, o transformou em Satanás. Portanto, Deus não criou Satanás. Lúcifer não tinha originalmente uma natureza maligna.


Merril Unger confirma que Ezequiel 28.11-19 é uma extraordinária e detalhada descrição de Satanás na sua primitiva glória, sem pecado, e reafirma a criação de Satanás sem pecado, citando a observação de Twestween:


“A posição de que o diabo e seus anjos não foram criados maus, mas tornaram-se assim em consequência da queda, a possibilidade que lhes foi dada no seu livre arbítrio deve ser sustentada firmemente, especialmente em oposição à doutrina dualista do princípio do mal em si mesmo.”


O Reino de Demônios


Satanás é soberano de um reino, e uma parte do seu domínio é constituída de demônios, ou seja, de seus súditos, que com ele se haviam aliado, transformando-se em anjos caídos, ou maus espíritos.


O Novo Testamento revela que Satanás é governador sobre um poderoso império do mal, que ele domina com uma inteligência consistente. Satanás não opera isoladamente, mas é o cabeça de um reino muito bem organizado, no qual seus súditos cumprem as responsabilidades delegadas sob sua direção. Ele é o líder de uma vasta e compacta organização de seres espirituais, os seus anjos (Mt 25.41). Como príncipe da potestade do ar (Ef 2.2), ele dirige habilmente uma organizada hoste de espíritos malignos, nos lugares celestiais, que cumprem os seus comandos.


Como Satanás, os demônios, originalmente anjos, foram criados sem pecado, mas foram envolvidos na mesma rebelião contra Deus. Embora haja muita discussão quanto à natureza das hostes de Satanás, há um consenso de que os anjos caídos são os demônios, ou espíritos malignos. Autores como Lewis S Chafer, John J. Owen, G. Campbell Morgan, A.A. Hodge, Charles Hodge e A.C. Gaobelein, dentre outros são dessa mesma opinião.


Satanás, como príncipe dos demônios, atua de um modo diferente em relação à pessoa de Jesus Cristo. Os espíritos malignos ou imundos não resistem à presença de Jesus e gritam em protesto, prostram-se diante do SENHOR e confessam quem ELE é (Mc 1.24; 3.11); e pedem misericórdia (Mc 5.7).


Quando, porém, se trata de Satanás em pessoa, sua maneira de lidar com Jesus é bastante diferente: ele o desafiou, tentou Jesus no deserto (ver Lucas 4.1-13); procurou impedi-lo nos seus propósitos; instigou os fariseus a se oporem a ELE (Lc 6.11); escondeu-se atrás de um dos discípulos para tentar desviar Jesus do seu intento (Mt 16.23); tomou um deles para traí-lo (Jo 13.2); e ainda conseguiu instigar a multidão para crucificá-lo (Mt 27.23). Não obstante, os espíritos operam em obediência a Satanás, para cumprir seus propósitos malignos.


Na Umbanda estaremos lidando com o que eles chamam de espíritos de caboclos, dos pretos velhos, da criança, substituindo os antigos orixás. Veremos a quem correspondem esses espíritos, que são considerados espíritos de heróis místicos, espíritos de mortos, de forças da natureza e espíritos desencarnados.


Esse artigo é um capítulo do livro: Deuses da Umbanda.




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