• Neuza Itioka

As obras da carne e a intimidade entre duas pessoas

Atualizado: Set 24

“Ora, as obras da carne são conhecidas: prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, orgias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, invejas, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a estas, a respeito das quais eu vos declaro, como já, outrora, vos preveni, que não herdarão o reino de Deus os que tais coisas praticam. (Gl 5.19-21)

O apóstolo Paulo, ao citar as obras da carne, começa a partir dos pecados do sexo. São três os pecados da área sexual por ele citados: prostituição, impureza, e lascívia. Isso é muito significativo.


Prostituição

A palavra “prostituição” significa desviar o sexo do seu alvo e propósito para o qual foi criado; inclui todo tipo de sexo praticado fora do casamento. Mais especificamente, prostituição significa praticar o sexo à base de dinheiro, isto é, vender o corpo.

Sei de um caso em que, para ganhar a vida, uma pessoa foi aconselhada a se prostituir. Tal conselho foi dado do seguinte modo: “Você não precisa sentir nada, apague essa ideia de que isso está errado e pratique o sexo como um negócio. Faça o negócio de vender relações sexuais”.

A palavra prostituição é também usada para descrever a infidelidade do povo de Deus para com o Senhor. Por isso, a prostituição e o adultério acham-se sempre relacionados com a idolatria e a infidelidade a Deus. Jerusalém foi chamada de cidade infiel, adúltera e prostituta (Ez 16).

Antes de cair no pecado da prostituição, invariavelmente a pessoa se afasta de Deus, e deixa de ter paixão e amor por Ele. Perde o temor a Deus e torna-se infiel.

Impureza

A impureza resulta do desejo carnal que leva à gratificação do apetite sexual através de pensamentos, palavras, atitudes e comportamentos que ferem a santidade de Deus. Inclui o gosto e o desejo de ver pornografia, e ter pensamentos impuros e maliciosos.

A impureza ocorre na mente e no coração do homem - o que o leva à prática de pecados sexuais de todo tipo: masturbação, pornografia, fornicação, abuso — em suas variadas formas e expressões (Mc 7.21).

Lascívia (ou Sensualidade)

Caracteriza-se por todo tipo de esforço libidinoso, para satisfação própria (Mc 7.22). Representa a prática de despertar desejos libidinosos que não podem ser satisfeitos dentro dos limites da aprovação divina.

A lascívia está presente na forma de ser da pessoa: no seu olhar, no sorriso, na roupa e no modo de falar. Esse pecado brota do desejo carnal de atrair atenção para si, contradizendo o padrão da pureza moral.

Idolatrias e feitiçarias

Em continuidade à lista das obras da carne, após as três primeiras citadas que estão relacionadas ao sexo pervertido, Paulo cita duas outras que têm a ver com pecados no âmbito do espírito, isto é, envolvendo diretamente espíritos malignos: idolatria e feitiçarias.

Já vimos como essas duas áreas se entrelaçam e se correlacionam. Por envolverem diretamente espíritos malignos, elas pertencem ao âmbito religioso. A religiosidade tem uma relação muito próxima com a prostituição e os pecados do sexo, em geral.

Num livro sobre adoração, de autoria de Judson Cronwell, “Let Us Worship” (Louvemos), é feito um comentário sobre a prática da bestialidade no Antigo Egito.

O autor lembra que muitos dos deuses do Antigo Egito eram animais: vaca, boi, gato e até insetos. Como a Palavra de Deus diz que aqueles que confiam em ídolos tornam-se como eles (Sl 115.8), Cronwell aplica essa Escritura a esse caso, e conclui que, quando o ser humano passa a adorar animais, ele fica como um animal, e evolui para a bestialidade. Isso é confirmado pela arqueologia, pois foram descobertas, em escavações no antigo Egito, evidências de uma quantidade muito grande de práticas de bestialidade.

Voltando para a lista das obras da carne, de Gálatas 5, podemos ver que a impureza, a prostituição e a lascívia são colocadas no mesmo nível da idolatria e da feitiçaria. Os pecados sexuais caracterizam pessoas voltadas para si mesmas, que vivem para se gratificarem. E o seu deus é o seu ventre, como diz Paulo (Fp 3.19). A palavra “sexolatria” define muito bem o estado de espírito dessa gente.

O livro “Falsa Intimidade”3 explica-nos a verdadeira natureza da infidelidade, da traição e da prostituição.

Quando um homem ou uma mulher caem em adultério ou em prostituição, na verdade isso acontece porque a pessoa já tinha cometido um adultério espiritual. Tendo perdido a paixão por Jesus, pelo Pai e pelo Espírito Santo, tal pessoa está certamente às voltas com outros deuses, que não o Senhor — deuses tais como: o seu eu, a sua fama, o seu dinheiro, o seu ministério.”

Deus deixou de ser o centro da sua adoração e paixão. Quando começam a surgir sinais de traição no coração de um dos cônjuges, na realidade tal pessoa está começando a trair o Senhor. É um problema espiritual de infidelidade a Deus, e de orgulho.

Um pecado contra Deus muitas vezes se torna uma semente que vai produzir um pecado sexual. É um coração que deixou de amar sinceramente a Deus, deixou de apaixonar-se pelo Senhor, e colocou no altar da sua vida outro deus.

No momento em que José no Egito foi tentado e assediado pela mulher de Potifar, sua resposta foi: “Ele (meu patrão) não é maior do que eu nesta casa, e nenhuma coisa me vedou, senão a ti, porque és sua mulher; como cometeria eu tamanha maldade e pecaria contra Deus? (Gn 39.9).

O pecado de adultério que José cometeria com a esposa de Potifar não seria contra o seu patrão, mas basicamente seria contra Deus, a quem ele tanto amava.

Idolatria é adoração a ídolos. Um ídolo é qualquer coisa que tome o lugar de Deus, principalmente em nossa veneração e adoração. Pode ser, por exemplo, a imagem de um falso deus; pode ser um demônio; ou ainda pode ser um deus pretensamente verdadeiro.

Muitas vezes a ideia que fazemos de Deus é bem diferente daquela que corresponde à sua verdadeira imagem. É um falso deus que nós mesmos produzimos, por não conhecermos o verdadeiro Deus, ou porque deixamos de buscá-lo.

John Bevere chama atenção ao fato de que, quando os israelitas fizeram o bezerro de ouro, não o chamaram de deus egípcio, mas exclamaram: “Este é teu deus, ó Israel, que te tirou da terra do Egito” (Ex 32.4 – ACF).

A razão disso é que a imagem que eles tinham de Deus era aquele bezerro, e, assim, quando quiseram fazer uma imagem do Deus de Israel, criador dos céus e da terra, o que surgiu foi aquele bezerro que estava na concepção deles. A nossa religiosidade sem vida pode nos levar a adorar um falso deus, concebido pelas nossas conveniências e pelo nosso orgulho.

Jezabel e a Perversão Sexual

A feitiçaria é um espírito de controle e manipulação que foi personificado em Jezabel, a mulher do rei Acabe. É um espírito que faz uso da sensualidade e da feitiçaria para destruir a obra de Deus, a sua Igreja e os seus profetas.

Jezabel atua de forma a oprimir o marido, fazendo com que a esposa passe a usurpar a posição que ele tem como cabeça do lar, tornando-o uma pessoa passiva. Assim, Jezabel procura destruir o casamento, inclusive, e principalmente, de pastores, e também tudo faz para tirar a vida dos profetas.

No entanto, com respeito à feitiçaria e às demais obras da carne, está escrito: “Não herdarão o reino de Deus os que tais coisas praticam” (Gl 5.21).

Muitos líderes cristãos creem que são grandes homens de Deus por terem um ministério por Ele aprovado, e então passam a achar que podem “escorregar” aqui e ali, e pensam que, mesmo assim, Deus vai continuar aprovando-os e aceitando-os.

Outros de igual modo têm se sentido “inatingíveis”, porque sempre estiveram num lugar de destaque. De alguma forma, o Evangelho de Deus é mudado; e até mesmo o que é pecado deixa de ser pecado para esses líderes. O pecado sexual atinge a própria pessoa, o parceiro do ato praticado, e a família de quem o pratica: o cônjuge traído e os filhos de ambas as partes. Se quem pecou for crente, o corpo de Cristo é atingido, pois fica contaminado e torna-se mais fraco. Os danos causados no mundo espiritual são devastadores.

A pessoa que comete tal ato sofre ainda outros efeitos: seu coração se endurece, e sua percepção espiritual diminui, a ponto de torná-la cega espiritualmente, e ainda cessa o seu discernimento.

A Intimidade entre Duas Pessoas

A verdadeira intimidade entre duas pessoas casadas deve se dar em três níveis: no espírito, nas emoções (ou seja, na alma), e no físico. Somente haverá a verdadeira intimidade preconizada por Deus, se houver total transparência entre elas.

Nenhuma obra da carne poderá estar presente entre os dois, pois qualquer pecado levantará uma parede de separação e poderá destruir o verdadeiro relacionamento planejado por Deus. Somente pessoas íntegras, honestas e verdadeiramente cheias de amor para com o seu cônjuge poderão viver o que Deus tem planejado.

A Bíblia diz: E conheceu Adão a Eva, sua mulher, e ela concebeu (...)” (Gn 4.1 - AFC). O verbo “conhecer” aqui significa que os dois tiveram uma relação sexual. Eles se conheceram de um modo que não se pode conhecer de outra forma; foi um conhecimento na mais profunda intimidade, um conhecimento mútuo, profundo e completo. Suas almas ligaram-se, entrelaçaram-se; seus espíritos tiveram uma comunhão num nível nunca antes experimentado. O homem e a mulher tornaram-se um (em espírito, alma e corpo), e isto aconteceu através do ato físico de uma relação sexual. Os dois liga- ram-se no físico — mas essa união estende-se à alma e ao espírito. Os dois tornaram-se uma só carne:

“Ou não sabeis que o homem que se une à prostituta forma um só corpo com ela? Porque, como se diz, serão os dois uma só carne. Mas aquele que se une ao Senhor é um espírito com ele.” (1Co 6.16)

O fato de se tornarem uma só carne tem sérias implicações, mas isso será tratado posteriormente. É interessante que, nesse versículo, o apóstolo Paulo compara a união entre um homem e uma mulher com a comunhão entre o homem e Deus.

Convém agora ressaltar que o verbo usado para expressar o “conhecer” a Deus é o mesmo que é empregado no sentido de um homem conhecer a sua mulher, de forma completa, íntima e plena, através do ato sexual, como ocorre em Gn 4.1.

Conhecer, nas Escrituras, possui assim dois sentidos:

  • Conhecer a Deus.

  • Conhecer o cônjuge, através do ato sexual.


No Antigo Testamento, a palavra “conhecer” é yãda’ em hebraico. Ela significa conhecer experimentalmente, ter comunhão com Deus. Nesse versículo de Gênesis, esse verbo é usado para descrever o coabitar de Adão com Eva.

E Mateus emprega esse verbo com respeito a José e Maria: “Contudo, não a conheceu, enquanto ela não deu à luz um filho, a quem pôs o nome de Jesus.” (Mt 1.25).

Assim, o verbo conhecer é usado nos seguintes casos:

  • Um homem conhecer a mulher experimentalmente, através da relação sexual (Gn 19.8; Nm 31.17; Jz 11.39, Mt 1.25).

  • Conhecer a Deus, num conhecimento experimental e não intelectual (1Sm 2.12, 3.7).

  • Conhecer a divindade, relacionando-se experimentalmente com ela (Dt 13.3,7,14).

  • Praticar perversões sexuais (Gn 19.5; Jz 19.22).

  • Para exprimir uma intimidade, tanto pura como impura.

O verbo yãda’ significa que o ser humano pode conhecer a Deus tal como um homem conhece uma mulher, no sentido completo, numa entrega total de um ao outro. É usado para os relacionamentos mais íntimos.

Esse conhecimento não poderá acontecer em nenhum outro nível, pois aquele que conhece (yãda’) o outro, o está conhecendo não só com a mente, mas também com a alma, com as emoções e com o corpo físico. Ninguém poderá alcançar esse conhecimento a não ser que tenha, como parceiro de sua união, o Deus Todo-Poderoso.


O Sagrado Leito Matrimonial


O autor de Hebreus fala sobre a necessidade de o homem conservar puro o seu leito matrimonial:

“O casamento deve ser honrado por todos: o leito conjugal, conservado puro; pois Deus julgará os imorais e os adúlteros.” (Hb 13.4)

Deus exige que o leito matrimonial seja puro, porque o casamento terreno aponta para o casamento do Cordeiro com a Igreja, de acordo com Efésios 5.

O casamento tem uma dimensão espiritual, além da emocional e da física. É algo tão sério em termos de pacto, aliança, compromisso e responsabilidade entre duas pessoas, que a Igreja Católica fez do matrimônio um sacramento, um meio da graça.

De acordo com a teologia protestante, porém, não podemos dar ao casamento de duas pessoas o mesmo peso espiritual dos atos do batismo e da santa ceia. Mas é interessante o casamento ter sido considerado um meio da graça pelos católicos.

Como é um tipo do relacionamento do Cordeiro com a Igreja, do Senhor com a sua Noiva, o casamento precisa ser considerado como algo realmente sagrado.

No casamento, tudo que estiver fora da pureza, da castidade e da fidelidade será considerado imoralidade, impureza e adultério. O padrão de Deus nesta questão é altíssimo. Pois a fidelidade exigida por Jesus é tão alta que, diz Ele, apenas por desejar a mulher do próximo, a pessoa já cometeu o pecado do adultério.

Vocês ouviram o que foi dito: ‘não adulterarás’, mas eu lhes digo: Qualquer que olhar para uma mulher para desejá-la, já cometeu adultério com ela no seu coração. (Mt 5.28 - NVÍ)

O padrão para o amor que o marido deve ter para com sua esposa é o amor de Jesus pela Igreja:

“Maridos, amai vossa mulher, como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra, para apresentá-la a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito.” (Ef 5.25-27)

O assunto que passaremos a abordar agora é muito importante: trata-se do que resulta de uma relação sexual: os dois tornam-se uma só carne.


Esse artigo é um capítulo do livro: Restauração Sexual - Vol 1.




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