• Neuza Itioka

A Alma de uma Igreja

Atualizado: Set 24



Toda cidade possui uma “alma”, diz o Dr. Robert Linthicum. Em seu livro “Cidade de Deus, Cidade de Satanás”, o autor fala da espiritualidade interna de uma cidade.37 De acordo com a visão bíblica, cada cidade e cada agrupamento da sociedade tem o seu anjo, alguém “que cobre” aquele território. Esta perspectiva de “cobrir” é particularmente importante, e foi expressa na história da criação:


“A terra, porém, estava sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava por sobre as águas.” (Gn 1.2)


O sentido da palavra hebraica RACHAPH, aqui traduzida como “pairava”, é “cobria”, tal como as galinhas (e também outras aves) cobrem e protegem com suas asas o seu ninho. Assim, neste versículo, a imagem é de Deus cobrindo e protegendo a terra que ele tinha criado, tal como uma galinha guarda e protege os ovos que ela acabou de botar.”


Desse modo, Linthicum interpreta os anjos das igrejas do livro de Apocalipse não como os pastores ou os encarregados do ministério dessas igrejas, mas como sendo os anjos que cobrem cada uma das igrejas das sete cidades da Ásia Menor. Assim, as cartas às igrejas foram endereçadas aos seus anjos. Da mesma maneira que existem principados e potestades territoriais malignos, o mesmo acontece no reino espiritual de Deus.


Podemos estender este conceito e admitir que existem anjos protetores para cada unidade da sociedade. Podemos nos referir, portanto, ao “anjo de uma igreja”, ou ao “anjo de uma cidade ou nação”. Lembra-se do contexto do jejum de Daniel? Ele ficou em oração para entender os planos de Deus quanto ao futuro de Israel. Depois de 21 dias, o anjo que veio até ele explicou:


“Desde o primeiro dia em que aplicaste o coração a compreender e a humilhar-te perante o teu Deus, foram ouvidas as tuas palavras... Mas o príncipe da Pérsia me resistiu por vinte e um dias; porém Miguel, um dos primeiros príncipes, veio para ajudar-me, e eu obtive a vitória sobre os reis da Pérsia.” (Dn 10.12-13)


Assim, o anjo da Pérsia ousou resistir ao anjo enviado pelo Senhor dos senhores, o Deus Altíssimo, até que o anjo Miguel entrou em ação para socorrer o anjo que trazia o recado para Daniel. Este texto mostra claramente que havia um anjo da Pérsia, no caso, um anjo maligno, evidenciando a existência de um principado territorial. Outro texto em que os estudiosos baseiam-se para concluir que, de fato, há anjos ou espíritos que dominam sobre nações e territórios, está em Deuteronômio 32.8:


“Quando o Altíssimo repartia as nações, quando espalhava os filhos de Adão ele fixou fronteiras para os povos, conforme o número dos filhos de Deus; mas a parte de Iahweh foi o seu povo, o lote da sua herança foi Jacó.” (Dt 32.8 – BJ)


Essa tradução é conforme a Septuaginta, na qual consta a expressão “conforme o número dos filhos de Deus”, o que pode ser entendido como “conforme o número dos anjos de Deus”, diferentemente das nossas traduções, baseadas no texto massorético hebraico, em que constam “filhos de Israel”. Peter Wagner, em seu livro “Oração de Guerra”, 39 explica:


“O problema ocorre com a frase ‘filhos de Israel’, porque estes nada têm a ver com espíritos territoriais. Entretanto, eruditos da Bíblia, como F. F. Bruce, nos dizem que, devido a algumas descobertas, como os papiros do Mar Morto, na quarta caverna de Qumran, agora sabemos que a versão Septuaginta – a tradução do texto hebraico para o grego – representa com mais exatidão o texto hebraico original. Em vez de dizer que Deus estabeleceu limites de grupos populacionais de acordo com o número dos filhos de Israel, o texto nos informa que ele firmou tais limites ‘segundo o número dos anjos de Deus’. Uma diferença crucial, para dizermos o mínimo.”


O que se pode entender desse texto é que as nações foram dividas entre os anjos. Mas, o povo de Deus, Jacó, é a parte da sua herança e, portanto, Deus diretamente iria lidar com essa nação.


Então, podemos entender que cada nação tem o seu anjo. E cada unidade social é representada por um anjo e, em especial, cada igreja possui o seu anjo. Alguns chamam-no de espiritualidade interna ou até de “alma”.


Expressão corporativa da espiritualidade interna


Para que vejamos as igrejas sendo restauradas, é preciso lidar com essa espiritualidade interna. Esta é uma realidade que foi compreendida muito bem pelo Dr. Robert Linthicum, que acabei de citar. Ele trabalhava na restauração de igrejas decadentes, e pôde ver uma série de implicações dessa realidade na vida das igrejas com problemas. Com referência ao caso de uma igreja no centro de uma cidade, ele escreveu:


“No passado, como muitas outras, aquela igreja tinha sido detentora de prestígio e de um bom nome. Mas agora enfrentava tempos difíceis. Seus problemas iam bem além do simples declínio no número de membros e das finanças seriamente comprometidas. Incrivelmente, durante três gerações, ela tinha expulsado o pastor, um atrás do outro. Alguns deles eram capacitados, cheios de talento, com ótimos antecedentes em seus ministérios pregressos.


Comecei a trabalhar ali justamente no momento em que, aparentemente, a igreja estava para ‘destruir’, mais uma vez, o seu pastor atual. A primeira coisa que fiz foi ter uma série de reuniões com os líderes da igreja para revermos a sua história. Chegamos à conclusão de que a raiz do problema estava bem longínqua; tinha começado havia quase cinquenta anos, muito antes de qualquer liderança atual entrar em cena. Por esse motivo, a maioria deles não tinha consciência da história ocorrida.


De uma maneira simplista, na perspectiva deles os problemas tinham sempre resultado das falhas causadas por pastores incompetentes e sem ética.


Mas, conforme fomos sondando o passado daquela comunidade, descobrimos alguns aspectos bastante significativos, e muita resistência espiritual.


Um dia um dos líderes disse: ‘Você sabe, nós sempre culpamos o pastor por causa dos nossos problemas. Mas... pensando bem, não pode ser sempre culpa do pastor! Parece que existe algo quase vivo em nós, algo que nos compele a encontrar uma vítima para ser sacrificada.


A comissão daquele presbitério, meio perdida, finalmente concluiu que aquela igreja estava condenada, fadada à própria destruição, e que nada poderia ser feito para salvá-la. Não sabíamos o que havia acontecido naquela igreja 50 anos antes, mas alguma coisa terrível deve ter acontecido, e isso desde então foi destruindo a ‘alma’ ou a ‘psiquê’ da igreja, ganhando paulatinamente poder para transformar-se em algo cada vez mais demoníaco.


De uma maneira muito peculiar, as transgressões dos pais naquela igreja parecem ter visitado seus filhos espirituais até a terceira e a quarta geração. E eles estavam aprisionados nesse ciclo destrutivo, e não podiam quebrá-lo. Era de fato ‘algo quase vivo em nós’. Não reconhecido o problema, e não sendo eliminado, isso vinha oprimindo os pastores e a congregação, geração após geração, até o ponto de uma destruição total da igreja.”


Entendamos o que realmente aconteceu com essa igreja


O efeito de um pecado cometido por uma geração passada, cinquenta anos atrás, é chamado de “iniquidade de nossos pais”, de acordo com Êxodo 20.5. É uma iniquidade dos antepassados sanguíneos, raciais ou nacionais, que é visitada, de geração a geração, nos filhos, nos netos e nos bisnetos. Ninguém estava consciente de que era necessário confessar aquele pecado.


E assim, em consequência, não houve quem se colocasse na brecha e pedisse perdão a Deus por aquela iniquidade.


Ali se encontrava o direito legal para os demônios agirem. O pecado não confessado, não arrependido, feriu profundamente o anjo daquela igreja.


Provavelmente o que foi feito de errado no passado tenha sido um maltrato e uma crítica impiedosa contra o pastor. Pode ter sido um julgamento errado, condenando-o injustamente. Por isso, ao longo daqueles 50 anos, aquele espírito de destruição foi se fortalecendo. Em consequência, com o passar do tempo, o anjo da igreja foi sendo enfraquecido pelo pecado, sucumbindo cada vez mais.


Desse modo, a iniquidade dos pais, ou seja, o pecado não confessado começou a receber o seu castigo. O efeito desse pecado foi se manifestando, cada vez mais, de forma que, na terceira ou quarta geração, o anjo da igreja já estava ferido mortalmente, a ponto de desfalecer.


Se os membros daquela igreja tivessem tido o entendimento de que poderiam identifi car-se com aqueles que antes deles tinham pecado, e confessassem esse pecado perante Deus, e verifi cassem ainda quais espíritos  malignos estavam atuando, expulsando-os, com certeza as coisas tomariam outro rumo. Mas, como nada disso foi feito, os demônios prevaleceram e a igreja acabou fechando.


Infelizmente eles não tiveram a sensibilidade e a visão de que o anjo da igreja poderia ser restaurado e a igreja ser salva.


A espiritualidade interna da igreja pode ser moldada pela atitude, pelo comportamento, pela motivação e pela vida de seus membros. O anjo da igreja expressa a condição espiritual de toda a comunidade.


Walter Wink é outro autor que também comenta um fato interessante sobre o anjo de uma igreja. Ele relata a história de uma pastora chamada Melinda que, numa área rural, pastoreava duas igrejas, uma muito diferente da outra. Uma era bastante entusiasmada, e recebeu a pastora de braços abertos reagindo muito bem a tudo que ela dizia e em tudo a que ela os desafiava. Essa igreja tornava-se, cada dia, mais viva, e o número de seus membros começou a crescer. A outra igreja, porém, era muito fechada e não reagia aos apelos e às palavras da pastora. Ela já não aguentava mais ter de suportar, domingo após domingo, naquela segunda igreja, o pequeno número dos que vinham ao culto (de 3 a 12 pessoas apenas), quando o rol era de 58 membros.


A igreja tinha cerca de 100 anos de existência. Os pastores que a precederam também nada puderam fazer. A igreja continuava indiferente e aparentemente nada acontecia.


A muito custo uma família decidiu então ser batizada e entrar na igreja. A pastora anunciou o dia em que eles seriam recebidos. Mas ninguém compareceu no dia do batismo. Lá estavam apenas três dos membros da igreja, e mais uma pessoa, que chegou 25 minutos depois. Tudo isso apenas aumentava a dor, que para a pastora ficava cada vez mais insuportável.


A pastora Melinda começou então a notar que havia uma pessoa que realmente era influente naquele lugar. Era um homem que se chamava Jorge, um rico fazendeiro que controlava tudo por lá. Mas Melinda preferiu pastorear do seu jeito, e não ao gosto daquele fazendeiro.


Analisando ainda o espírito da cidade, ela notou que a igreja havia se tornado um microcosmo da cidade. Havia um espírito de derrota e insucesso. Sentimentos de rejeição e fracasso eram patentes em toda a cidade. O suicídio e o alcoolismo eram ali os maiores problemas. A população daquela localidade não tinha nenhum desafio; o que eles queriam era apenas sobreviver, e não progredir ou crescer. Isso não passava pela mente deles.


O sentimento de baixa estima, que era uma característica da cidade, tinha sido absorvido pela igreja. Diante dessa situação, e para justificar as próprias falhas pessoais, eles queriam que a igreja continuasse a ser e o que ela sempre tinha sido: uma igreja cheia de falhas. Pois queriam conservar uma estrutura em que nem mesmo as pessoas mais bem preparadas e mais capacitadas – isto é, os pastores – fossem bem sucedidos. Inconscientemente eles queriam que os pastores fracassassem.


Os três pastores anteriores não tinham conseguido nenhuma reação positiva; em outras palavras, eles falharam como pastor. Quando o último, antes de Melinda, deixou a igreja, na sua despedida compareceram nada menos do que 200 pessoas da comunidade. Todos queriam afirmar que ele havia fracassado. O sadismo campeava ali. Assim diz Wink:


“O ministro tinha de ser um bode expiatório, o sacrificado pela comunidade, de tal forma que as pessoas se sentissem menos mal a seu próprio respeito”.


Quando a pastora deu um aperto no seu pessoal, porque não vinham à igreja, um dos presentes levantou-se e perguntou o que ela sentia quando era obrigada a liderar um culto com três ou seis pessoas. Ela respondeu: “Como se estivesse sendo apunhalada no meu coração.” Mas ninguém reagiu. Todos se justificaram da sua ausência nos cultos.


A situação dessa igreja estava muito complicada. O anjo da igreja tinha de ser identificado e desmascarado. Como o anjo dessa igreja que a pastora Melinda pastoreava era a expressão da espiritualidade interna da congregação, ele podia ser identificado como sendo “crítico do pastor ao extremo, fofoqueiro, murmurador, maldizente, derrotista, enganador e sádico” – e desejava continuar a ser exatamente assim. Seu prazer era acabar com os pastores. Já tinha conseguido matar a esperança de vários ministros, já tinha destruído diversos ministérios e já havia feito com que muitos dos pastores se sentissem totalmente perdidos.


Wink relata ainda que:


“A pastora procurou identificar esse espírito atuante na igreja e começou a trabalhar nesse sentido. Ela convocou então uma reunião dos membros com a ‘comissão de relação pastor e congregação’. Esta seria uma oportunidade para qualquer pessoa poder dizer o que sentia em relação ao pastor. Mas foi decidido que nenhuma reclamação poderia ser aceita sem que a pessoa envolvida estivesse presente. Um boletim com o nome dos membros da comissão foi publicado e a congregação deveria falar sobre agradecimentos, reconhecimentos, e necessidades não satisfeitas. Tudo isso foi trazido à reunião. Cada ponto levantado foi tratado com muita graça. A pastora Melinda havia se preparado muito bem, com o Espírito Santo. Mas a mesa foi paulatinamente sendo virada. Um novo membro pediu a palavra e disse:


– Eu vim à igreja e procurei os anciãos. Mas o que eu vi foi que eles estavam espalhando rumores terríveis sobre a pastora, e ninguém fazia nada a respeito.

Um fazendeiro, Jorge, que então estava na comissão, falou meio defensivo. Disse ele, dirigindo-se à pastora:


– Irmã, nós a empregamos para que nos trouxesse novas pessoas, mas a senhora falhou.


Ela respondeu:


– Jorge, eu os trouxe, mas foram vocês que os mandaram embora.

– Então me cite os casos – contestou ele.

E Melinda apresentou-os, um a um. Jorge teve de ouvir a verdade e finalmente se quebrantou. Foi então que ele disse:


– Sempre temos culpado os ministros; ninguém nos satisfez. Mas a culpa não é sua, Melinda. Aliás, a pastora foi a única pessoa que quis lidar com os problemas que são tão velhos quanto a igreja. Quem sabe somos nós os problemas, e não a senhora.”


Foi assim que começou uma transformação.


Restauração de uma Igreja


Quero relatar agora um outro caso, de uma igreja que também estava ferida, por causa de problemas do passado. Os líderes dessa igreja vinham orando já havia tempo, pedindo perdão pelos pecados praticados em toda a história da igreja. Eles já estavam, por cerca de oito meses, reunindo-se com um espírito de contrição e arrependimento pelos pecados cometidos no passado.


Havia muita dor no meio deles. Eles sabiam que, se a igreja se tornasse saudável, ela poderia desenvolver os seus ministérios e atingir a maturidade, crescendo de modo a alcançar um tamanho que eles nem imaginavam. Talvez a igreja até mesmo ultrapassasse 20 vezes o número de membros a que tinha sido confinada pelas forças do inimigo.


Assim, um dia, a igreja reuniu-se para que Deus pudesse operar na sua cura. Os líderes foram à frente e, com toda humildade, nomearam os pecados históricos de cada departamento da igreja e pediram perdão por eles, em meio a lágrimas de toda a congregação. Deus realmente quebrantou os que pediram perdão, bem como todos os demais que ouviram e participaram das confissões. Foi um momento sem igual na história daquela igreja.


Dentre as várias visões que Deus permitiu que os intercessores tivessem, uma, em particular, chamou a minha atenção. Era a visão de um gigante. Ele estava caído e mortalmente ferido, mas o sangue era drenado pela ferida. Quando a confissão era feita, a ferida ia se fechando. Foi quando uma pessoa em particular confessou o seu espírito de controle, que a drenagem foi interrompida. A sua armadura estava colocada ao seu lado.


Deus estava curando aquela comunidade. Sabemos que Deus operou muito naquela noite.


O Anjo da Igreja


O que já aprendemos é que a igreja é moldada, de alguma forma, para o bem ou para o mal, conforme a atitude e a conduta de seus membros. Como há outras fontes de inspiração, que não são de Deus, a igreja pode também sofrer influência dos principados e potestades da cidade.


Cada unidade da sociedade é guardada e dirigida pelo seu anjo protetor. Robert Linthicum chamaria isso de “a essência da espiritualidade interna” do grupo ou da cidade. E Peter Boss por certo chamaria de “expressão corporativa da espiritualidade” daquele território.


Quando o pecado corporativo toma uma forma mais incisiva, ele começa a fazer parte da espiritualidade interna da corporação, da instituição ou de um grupo; no caso, de uma igreja local.


Alguns chamariam essa espiritualidade interna de “alma da igreja”, e outros de “o anjo da igreja”.


Walter Wink diz que o anjo da Igreja é demoníaco quando a congregação dá as costas a uma tarefa específica, separada por Deus, e coloca outros alvos como ídolos.


E, infelizmente, muitas vezes é isto que tenho visto: o anjo de uma igreja transformar-se numa força demoníaca para matar a alma da igreja.


Esse artigo é um capítulo do livro: Noiva Restaurada.





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