A ação de Deus em minha Família




A minha avó Júlia nasceu em 1886, em Budapeste, Hungria, na zona rural. Seus pais eram católicos. Meu avô Anton nasceu mais ou menos na mesma época.Eles se conheceram jovenzinhos, pois cresceram no mesmo vilarejo. Passados alguns anos, eles se casaram.


Naquela época, os homens de família, com filhos, eram arregimentados para a guerra, deixando para traz seus sonhos, suas alegrias, não viam seus filhos crescerem... Meu avô Anton foi um deles.


Na Primeira Guerra Mundial, ele, juntamente com seu regimento, cavou uma trincheira para

pegar os russos de surpresa. Estava tão cansado, com fome e frio, que em um momento de trégua, aguardando o inimigo, fechou os olhos, abaixou a cabeça e teve uma visão de sua esposa, Júlia, amamentando seu primeiro filho, do qual não havia presenciado o nascimento.Com lágrimas escorrendo em seu rosto, foi surpreendido pelos russos, com suas armas apontadas para ele. Pôs as mãos na cabeça, rendendo-se. Olhou para os

lados e viu que estava sozinho. Todos os seus companheiros haviam fugido.


Foi levado a um campo de concentração na Rússia, onde trabalhou na lavoura, na plantação de uvas, com dois outros homens que também haviam sido capturados e dos quais se tornara amigo.


Um dia, passado algum tempo que já esta­vam trabalhando na lavoura, seus dois amigos foram levados pelos soldados. Querendo saber o que iria acon­tecer com eles, seguiu-os, escondido. Infelizmente, a cena que seus olhos viram causou-lhe tristeza e medo: seus amigos foram fuzilados sem nenhuma gota de pie­dade ou hesitação.


Após essa cena tão triste, meu avô Anton começou a planejar sua fuga. Ele sabia que a quilômetros dali havia uma ferrovia. Após alguns dias planejando, ele fugiu do campo de concentração no meio da madru­gada, vestindo um casaco até os pés e carregando um facão na cintura. Andou muitos dias a pé, debaixo de muita neve e frio. Com fome e muito cansado, conseguiu pegar um trem clandestinamente, escondendo-se dos policiais russos.


No longo e demorado caminho até a Hungria, sua terra natal, ele foi abordado pelo fiscal do trem, que lhe pediu que apresentasse passagem e docu­mentos. Abriu o casaco e mostrou o facão escondido. Para sua surpresa, o homem o ignorou, entendendo que era fugitivo de guerra, deixando-o seguir viagem.


Enfim, chegou a Budapeste. Teve de cami­nhar uma longa distância até sua casa, que ficava na zona rural, o que levou mais alguns dias.


Lá chegando, bateu na porta e foi atendido por sua esposa, Júlia, que estava com seu filho nos braços – o mesmo da visão que tivera na trincheira. Pediu um copo de água, e como ela estava demorando, pediu que se apressasse, pois estava com muita sede. Sua esposa não o havia reconhecido, pois estava sujo, mal vestido, bar­budo... Quando chegou com o copo de água, ele agrade­ceu. Somente neste momento, ela o reconheceu. Eles se abraçaram e ele pegou o filho no colo pela primeira vez.


Mudança para o Brasil

Com o passar do tempo, meu avô Anton, ainda se lembrando das marcas da guerra – violências, mortes, fuzilamentos, inclusive seu atropelamento por um carro de guerra durante uma batalha, que o levou a ficar um bom tempo de cama –, temia passar pelas mesmas dores novamente.


Nessa época, já com quatro filhos, inclusive minha mãe Irina, estavam passando fome na Hungria – o café da manhã era um pão queimado e ralado, como se fora pó de café.

Prevendo a Segunda Guerra Mundial, tomou a decisão de vir para o Brasil. Já tinha ouvido falar, através de visitantes estrangeiros, que este era um país de paz e abundância em alimentos.


Anton e Júlia embarcaram em um navio fre­tado pelo governo brasileiro, por volta de 1925, com seus quatro filhos: Júlio, Júlia, Anton e Irina.


Irina, a filha mais nova na ocasião, que ainda era um bebê, acidentalmente caiu no mar, no meio do Oceano Atlântico. Mas, milagrosamente, alguém a salvou! Deus já havia escrito que Irina seria minha mãe.


Chegaram ao Brasil, no porto de Santos, depois de mais ou menos três meses. As autoridades bra­sileiras determinou que se dirigissem à cidade de Itú - SP, onde iriam trabalhar em uma fazenda em troca de alimento. Foram enviados para lá sozinhos; outras famí­lias húngaras foram para outros lugares.


Esse artigo é um capítulo do livro: Jesus Prometeu, Eu Volto.



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